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Português na Linha

A disciplina de Português fora da sala de aula

Português na Linha

A disciplina de Português fora da sala de aula

FIDALGO

Gil Vicente apresenta o Fidalgo com toda a sua vaidade e presunção, «fumoso», ricamente vestido e seguido de um pajem que lhe segurava a cauda do manto e lhe transportava uma cadeira de espaldas. Habituado a gozar de privilégios especiais, o Fidalgo nem sequer pensa que poderá ir para o Inferno. Assim, para justificar o seu direito a entrar na barca celestial, apresenta apenas ao Anjo, como único argumento, a sua condição social: «Sou fidalgo de solar/é bem que me recolhais».

A sua altivez e vaidade levam-no a exigir que todos o tratem por «Vossa Senhoria» de acordo com os seus pergaminhos nobiliárquicos. Por o Anjo lhe ter dito uma frase que ele considerou pouco cortês («Pera vossa fantesia/mui estreita é esta barca»), o Fidalgo reage logo violentamente: «Pera senhor de tal marca/não há qui mais cortesia?». Mas o Diabo, momentos antes, tratara-o por tu, sem qualquer reação da parte do Fidalgo. Porquê? Certamente porque este ficou tão espantado com a revelação e acusação do Diabo que nem teve presença de espírito para o meter na ordem. Aliás é o próprio Diabo quem, passado este breve momento escarninho e zombeteiro, passa prontamente para o tratamento cerimonioso, depois dum verso de transição: «embarca ou embarcai». Mas, na cena seguinte, depois de ter sido humilhado e condenado, vemos o Fidalgo tão abatido e deprimido que, quando o Onzeneiro o trata por Vossa Senhoria, o Fidalgo já reage de modo inverso: «Dá ó demo a cortesia!» Mas, nessa altura, já não era um fidalgo mas um pobre condenado ao Inferno; o próprio Diabo ameaça espancá-lo: «dar-vos-ei tanta pancada/C’um remo, que renegueis!».

Ao Fidalgo parece-lhe a barca infernal um «cortiço», isto é, uma barca muito ordinária e reles para transportar um nobre tão poderoso e importante como ele. Mas o Diabo e o Anjo formulam as suas críticas, que se podem resumir assim: que ele vivera a seu prazer, isto é, que fizera tudo quanto quisera, que se entregara aos prazeres, fora tirano e, consequentemente, desprezara os pequenos, ou sejam, os elementos do povo. Para demonstrar que ele vivera a seu prazer, analisa Gil Vicente a vida sentimental do Fidalgo, repartida entre duas mulheres: a esposa e a amante. Mas o que o Fidalgo ignora e que o dramaturgo denuncia, para caracterizar melhor a sociedade do seu tempo, é que tanto uma como a outra lhe eram infiéis e tinha cada uma delas o seu amante. Não se trata, portanto, dum pormenor secundário mas dum elemento essencial para a caracterização do tipo e da sociedade em que estava inserido.

Mas Gil Vicente não condena só aquele aristocrata mas todos os seus antepassados, como afirma expressamente o Diabo quando informa o Fidalgo de que passará para o Inferno assim como «passou vosso pai», isto é, o autor generaliza e condena a nobreza como classe social.

O criado ou pajem que acompanha o Fidalgo não entra em nenhuma das barcas. Porquê? Evidentemente que não representa ali um tipo, uma alma dum defunto, mas um simples elemento caracterizador e distintivo, tratado a nível de objeto, que o dramaturgo risca do palco assim que deixa de ser necessário. Mas a sua função simbólica deveras importante na medida em que representa um elemento do povo, a principal vítima da opressão da nobreza que, manifestamente, não poderia acompanhar o fidalgo na sua viagem para o Inferno.

 

In FIUZA, M., Auto da Barca do Inferno (edição didática), Porto Editora, 2011.

                                       

Síntese:

O Fidalgo representa a nobreza e critica aqueles que só pensam no seu estatuto social.

 

Símbolos cénicos

Paje(m) - Simboliza a tirania e opressão que exercia sobre o seu povo.

Cadeira d’espaldas - Representa a falsa vivência da religião.

Manto - Símbolo do estatuto social e da sua vaidade.

Caracterização

Tirano, vaidoso, altivo, infiel e exuberante

 

Argumentos de defesa

É um fidalgo de solar; tem quem reze por ele na terra.

 

Argumentos de acusação

Viveu uma vida de prazeres; deve seguir o destino do pai, que também foi condenado ao Inferno; é tirano, vaidoso e despreza os mais fracos.

 

 

 

O Auto da Barca do Inferno, reflete, à semelhança de outras obras de Gil Vicente, sociedade da época, sendo possível traçar um quadro fiel das classes sociais apresentadas, dos seus hábitos, defeitos e virtudes.

O Auto da Barca do Inferno data de 1517 e é considerado uma moralidade. As moralidades eram representações cujas personagens simbólicas encarnavam vícios ou virtudes com o objetivo de moralizar a sociedade.

► Resumo

1.ª cena

Faz-se a apresentação da barca do Inferno. O Diabo dialoga com o seu companheiro, revelando uma grande euforia e pressa de que tudo esteja preparado para o embarque das almas e para a partida rumo ao Inferno. Após esta breve apresentação, inicia-se o desfile das várias personagens-tipo.

 

2.ª cena

A primeira personagem a entrar em cena é um Fidalgo, que traz consigo um pajem, um criado, que lhe segura a cauda do manto e uma cadeira. O Fidalgo pertence à nobreza e, por isso, acha que não vai para o Inferno, mas o Anjo não o deixa entrar na barca da Glória pelos seus pecados. O Fidalgo acaba por embarcar na barca do Inferno, enquanto o moço sai de cena.

 

3.ª cena

A segunda personagem é um Onzeneiro, que viveu a amealhar dinheiro à custa dos outros. Por isso entra com uma bolsa tão grande que quase não cabe na barca. O Diabo quer que ele entre desde logo na sua barca, mas o Onzeneiro dirige-se primeiro à barca da Glória, sendo também repelido pelo Anjo. No entretanto, pede ao Diabo que o deixe voltar à terra para ir buscar um dinheiro que deixou escondido, mas o Diabo obriga-o a embarcar.

 

4.ª cena

A terceira personagem a entrar é o Parvo, chamado Joane, que conversa com o Diabo, insultando-se um ao outro. Por ser uma personagem que não se pode responsabilizar pelos seus atos, o Anjo promete levá-lo para o Paraíso; entretanto fica na praia onde assiste e comenta o desfile das outras personagens.

 

5.ª cena

A quarta personagem é um Sapateiro, João Antão, que vem carregado de formas. Como passou a vida a roubar o povo é condenado à barca do Inferno, mas primeiro ainda tenta a sorte junto do Anjo. De nada lhe adianta e entra na barca do Inferno.

 

6.ª cena

Entra a quinta personagem, um Frade, a cantar, que traz pela mão uma moça, Florença, e ainda um traje de esgrimista por baixo do hábito. Como viveu uma vida de pecado, o Diabo também o convida a entrar na barca, mas ele e Florença dirigem-se ao Anjo, que os rejeita. Entram os dois na barca do Inferno.

 

7.ª cena

Brízida Vaz é a sexta personagem a entrar em cena. Traz consigo um grupo de moças que entregou à prostituição. No entanto, e porque também é alcoviteira, ainda se acha digna de entrar no Céu. Como tal não é possível, entra na barca do Inferno, e as suas moças abandonam a cena.

 

8.ª cena

A sétima personagem a desfilar é um Judeu que traz um bode às costas. Nem sequer dialoga com o Anjo, pois não acredita na religião cristã. Também não entra na barca do Inferno, pois o Diabo decide que ele e o bode irão a reboque, já que era hábito os judeus estarem separados das restantes pessoas.

 

9.ª cena

Entra um Corregedor, que vem carregado de processos. O Diabo acusa-o de se ter deixado subornar várias vezes. Entretanto, entra em cena um Procurador carregado de livros e que também se dirige ao Diabo. Ambos, Corregedor e Procurador, procuram um lugar na barca da Glória, mas acabam por entrar na do Inferno. O Corregedor discute com Brízida Vaz, pois tinha-a condenado.

 

Nota: Embora se verifique a entrada de duas personagens, é habitual considerar-se a cena do Corregedor e do Procurador como uma só, visto que ambas as personagens pertencem ao mesmo grupo socioprofissional e percorrem o espaço cénico simultaneamente.

 

10.ª cena

Surge um Enforcado, que ainda traz a corda ao pescoço, convencido que poderia entrar na barca da Glória. Acaba por entrar também na barca do Inferno.

 

11.ª cena

Finalmente, surgem Quatro Cavaleiros, que morreram a lutar pela Fé - razão bastante para ingressarem na barca da Glória.

 

Narrador heterodiegético : Vasco da Gama

Narratário (a quem se dirige o narrador): Rei de Melinde

Estrutura do episódio

  • Introdução (est. 118-119)
    • Apresentação do “caso triste e dino da memória” (est. 118)
    • Responsabilização do Amor – força trágica e fatal (est. 119) que “deste causa à molesta morte sua”

 

  • Desenvolvimento (est. 120-132)
    • As “memórias de alegria”
    • O “engano da alma, ledo e cego” de Inês
    • O amor recíproco (“Do teu Príncipe ali te respondiam “
    • Oponente e destinador: D. Afonso IV (“o velho pai sesudo”)
    • O dia fatal:
      • Inês junto do Rei
      • Discurso de Inês
      • Piedade do Rei
      • Ação dos conselheiros

 

  • Conclusão e considerações do narrador (est. 133-135)
    • Um crime de lesa beleza: “Tal está, morta, e pálida donzela” que a própria Natureza, sua confidente, chora.

                                                                                                                                    

 

 

 

 

 

 

                                                                                                                                                 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Proposição situa-se no canto I, entre as estâncias  1 e 3, onde o Poeta enuncia o seu propósito ("Cantando, espalharei por toda a parte os feitos dos Portugueses"). Os portugueses são apresentados como um herói coletivo, ao invés de um herói individual, como nas epopeias antigas. Neste contexto "cantar" signigfica exaltar, celebrar, enaltecer. Assim o Poeta exalta três grandes grupos de portugueses: 

  • ”As armas e os barões assinalados”, devido a terem ousado navegar nos mares deconhecidos, enfrentaram vários perigos e guerras e construírem um novo império em terras remotas.
  • "[...] as memórias gloriosas/ Daqueles Reis” que expandiram o território português além-fronteiras e a fé cristã.
  • ”[...] aqueles que [...] / Se vão da morte libertando”, porque realizaram grandes e “valerosas” obras.

Em conclusão:

- “As armas e os barões assinalados”,

ou seja, todos aqueles homens cheios de coragem que descobriram, “por mares nunca dantes navegados”, novas terras, indo mais longe do que aquilo que alguém podia esperar de seres não divinos, “Mais do que prometia a força humana”.

 

- “Daqueles Reis”,

ou seja, os reis que contribuíram para que a fé cristã se espalhasse por terras que foram sendo descobertas, alargando assim o Império Português.

 

- “E aqueles que por obras valerosas/ (...) se vão da morte libertando”,

ou seja, todos os que são dignos de serem recordados pelos feitos heroicos cometidos em favor da pátria e que, por isso, nem mesmo a morte os pode votar ao esquecimento, “Se vão da lei da Morte libertando” pois foram imortalizados.

 

Para tal, compara os feitos dos portugueses aos de Ulisses, herói da Odisseia de Homero, e aos de Eneias, o troiano que, na Eneida de Virgílio, chegou ao Lácio e fundou Roma.

 

A proposição funciona como uma apresentação geral da obra, é uma síntese daquilo que o poeta se propõe fazer. Propor significa precisamente apresentar, expor, anunciar, mostrar.

O poeta mostra aquilo que pretende ao escrever a epopeia: “ Cantando espalharei por toda a parte”. O verbo cantar tem aqui o sinónimo de exaltar, enaltecer ou celebrar.

 

 

CONSÍLIO DOS DEUSES (C. I – EST. 19-41)

  • Discurso de Júpiter
    • Defende os portugueses, afirmando que estes são um povo de grande valor, como já fora demonstrado em triunfos anteriores face aos mouros, romanos e castelhanos.
    • Afirma que o destino determinava que os seus feitos e valentia levariam ao esquecimento dos impérios anteriores.
    • Comprova a coragem dos portugueses em navegar em mares desconhecidos, em frágeis embarcações, enfrentando os perigos da natureza (ex.: ventos, tempestades). Apesar das condições adversas, conseguiram sempre ultrapassar as dificuldades.

Decisão: “Que sejam, determino, agasalhados / nesta costa Africana como amigos; / E, tendo guarnecida a lassa frota, / Tornarão a seguir sua longa rota” (C. I est. 29, vv. 5-8)

 

  • Discurso de Baco (personagem oponente):
    • Opõe-se aos portugueses e à decisão de Júpiter, argumentando que estes se iriam tornar superiores a ele próprio no Oriente.
    • Temia que esquecessem as suas façanhas no Oriente, no momento em que os fortes portugueses chegassem à Índia.

 

  • Discurso de Vénus (personagem adjuvante):
    • Assume a defesa dos portugueses porque se trata de gente parecida com o seu amado povo romano através das suas qualidades (coragem e valentia) e da língua (latim).
    • Ao ajudar os portugueses o seu nome seria também para sempre cantado no Oriente.

 

  • Discurso de Marte (personagem adjuvante):
    • Defende os portugueses, porque achava que eles o mereciam, mas também porque era um antigo apaixonado de Vénus.
    • Zangado, Marte ordena que se façam cumprir as ordens iniciais de Júpiter, e que Baco não se devia opor aos portugueses, porque estes eram descendentes de Luso, seu grande amigo.

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Os Dez Cantos d'Os Lusíadas

 Canto I

O poeta indica o assunto global da obra, pede inspiração às ninfas do Tejo e dedica o poema ao Rei D. Sebastião. Na estrofe 19 inicia-se a narração de viagem de Vasco da Gama, referindo brevemente que a Armada já se encontra no Oceano Índico, no momento em que os deuses do Olimpo se reúnem em Concílio convocado por Júpiter, para decidirem se os Portugueses deverão chegar à Índia.

Com o apoio de Vénus e Marte e apesar da oposição de Baco, a decisão é favorável aos Portugueses que, entretanto, chegam à Ilha de Moçambique. Aí Baco prepara-lhes várias ciladas que culminam com o fornecimento de um piloto por ele instruído para os conduzir ao perigoso porto de Quíloa. Vénus intervém, afastando a armada do perigo e fazendo-a retomar o caminho certo até Mombaça. No final do Canto, o poeta reflete acerca dos perigos que em toda a parte espreitam o Homem. 

Canto II

O rei de Mombaça, influenciado por Baco, convida os Portugueses a entrar no porto para os destruir. Vasco da Gama, ignorando as intenções, aceita o convite, pois os dois condenados que mandara a terra colher informações tinham regressado com uma boa notícia de ser aquela uma terra de cristãos. Na verdade, tinham sido enganados por Baco, disfarçado de sacerdote. Vénus, ajudada pelas Nereidas, afasta a Armada, da qual se põem em fuga os emissários do Rei de Mombaça e o falso piloto.

Vasco da Gama, apercebendo-se do perigo que corria, dirige uma prece a Deus. Vénus comove-se e vai pedir a Júpiter que proteja os Portugueses, ao que ele acede e, para a consolar, profetiza futuras glórias aos Lusitanos. Na sequência do pedido, Mercúrio é enviado a terra e, em sonhos, indica a Vasco da Gama o caminho até Melinde onde, entretanto, lhe prepara uma calorosa recepção. A chegada dos Portugueses a Melinde é efetivamente saudada com festejos e o Rei desta cidade visita a Armada, pedindo a Vasco da Gama que lhe conte a história do seu país.

 Canto III

Após uma invocação do poeta a Calíope, Vasco da Gama inicia a narrativa da História de Portugal. Começa por referir a situação de Portugal na Europa e a lendária história de Luso a Viriato. Segue-se a formação da nacionalidade e depois a enumeração dos feitos guerreiros dos Reis da 1.ª Dinastia, de D. Afonso Henriques a D. Fernando.

Destacam-se os episódios de Egas Moniz e da Batalha de Ourique, no reinado de D. Afonso Henriques, e o da Formosíssima Maria, da Batalha do Salado e de Inês de Castro, no reinado de D. Afonso IV.

 Canto IV

Vasco da Gama prossegue a narrativa da História de Portugal. Conta agora a história da 2.ª Dinastia, desde a revolução de 1383-85, até ao momento, do reinado de D. Manuel, em que a Armada de Vasco da Gama parte para a Índia.

Após a narrativa da Revolução de 1383-85 que incide fundamentalmente na figura de Nuno Álvares Pereira e na Batalha de Aljubarrota, seguem-se os acontecimentos dos reinados de D. João II, sobretudo os relacionados com a expansão para África.

É assim que surge a narração dos preparativos da viagem à Índia, desejo que D. João II não conseguiu concretizar antes de morrer e que iria ser realizado por D. Manuel, a quem os rios Indo e Ganges apareceram em sonhos, profetizando as futuras glórias do Oriente. Este canto termina com a partida da Armada, cujos navegantes são surpreendidos pelas palavras profeticamente pessimistas de um velho que estava na praia, entre a multidão. É o episódio do Velho do Restelo.

Canto V

Vasco da Gama prossegue a sua narrativa ao Rei de Melinde, contando agora a viagem da Armada, de Lisboa a Melinde.

É a narrativa da grande aventura marítima, em que os marinheiros observaram maravilhados ou inquietos o Cruzeiro do Sul, o Fogo de Santelmo ou a Tromba Marítima e enfrentaram perigos e obstáculos enormes como a hostilidade dos nativos, no episódio de Fernão Veloso, a fúria de um monstro, no episódio do Gigante Adamastor, a doença e a morte provocadas pelo escorbuto.

O canto termina com a censura do poeta aos seus contemporâneos que desprezam a poesia.

Canto VI

Finda a narrativa de Vasco da Gama, a Armada sai de Melinde guiada por um piloto que deverá ensinar-lhe o caminho até Calecut.

Baco, vendo que os portugueses estão prestes a chegar à Índia, resolve pedir ajuda a Neptuno, que convoca um Concílio dos Deuses Marinhos cuja decisão é apoiar Baco e soltar os ventos para fazer afundar a Armada. É então que, enquanto os marinheiros matam despreocupadamente o tempo ouvindo Fernão Veloso contar o episódio lendário e cavaleiresco de Os Doze de Inglaterra, surge uma violenta tempestade.

Vasco da Gama vendo as suas caravelas quase perdidas, dirige uma prece a Deus e, mais uma vez, é Vénus que ajuda os Portugueses, mandando as Ninfas seduzir os ventos para os acalmar.

Dissipada a tempestade, a Armada avista Calecut e Vasco da Gama agradece a Deus. O canto termina com considerações do Poeta sobre o valor da fama e da glória conseguidas através dos grandes feitos.

Canto VII

A Armada chega a Calecut. O poeta elogia a expansão portuguesa como cruzada, criticando as nações europeias que não seguem o exemplo português. Após a descrição da Índia, conta os primeiros contactos entre os portugueses e os indianos, através de um mensageiro enviado por Vasco da Gama a anunciar a sua chegada.

O mouro Monçaíde visita a nau de Vasco da Gama e descreve Malabar, após o que o Capitão e outros nobres portugueses desembarcam e são recebidos pelo Catual e depois pelo Samorim. O Catual visita a Armada e pede a Paulo da Gama que lhe explique o significado das figuras das bandeiras portuguesas. O poeta invoca as Ninfas do Tejo e do Mondego, ao mesmo tempo que critica duramente os opressores e exploradores do povo.

Canto VIII

Paulo da Gama explica ao Catual o significado dos símbolos das bandeiras portuguesas, contando-lhe episódios da História de Portugal nelas representados. Baco intervém de novo contra os portugueses, aparecendo em sonhos a um sacerdote brâmane e instigando-o através da informação de que vêm com o intuito da pilhagem.

O Samorim interroga Vasco da Gama, que acaba por regressar às naus, mas é retido no caminho pelo Catual subornado, que apenas deixa partir os portugueses depois destes lhes entregarem as fazendas que traziam. O poeta tece considerações sobre o vil poder do ouro.

Canto IX

Após vencerem algumas dificuldades, os portugueses saem de Calecut, iniciando a viagem de regresso à Pátria. Vénus decide preparar uma recompensa para os marinheiros, fazendo-os chegar à Ilha dos Amores. Para isso, manda o seu filho cúpido desfechar setas sobre as Ninfas que, feridas de Amor e pela Deusa instruídas, receberão apaixonadas os Portugueses.

A Armada avista a Ilha dos Amores e, quando os marinheiros desembarcam para caçar, vêem as ninfas que se deixam perseguir e depois seduzir. Tétis explica a Vasco da Gama a razão daquele encontro (prémio merecido pelos “longos trabalhos”), referindo as futuras glórias que lhe serão dadas a conhecer. Após a explicação da simbologia da Ilha, o poeta termina, tecendo considerações sobre a forma de alcançar a Fama.

 Canto X

As Ninfas oferecem um banquete aos portugueses. Após uma invocação do poeta a Calíope, uma ninfa faz profecias sobre as futuras vitórias dos portugueses no Oriente. Tétis conduz Vasco da Gama ao cume de um monte para lhe mostrar a Máquina do Mundo e indicar nela os lugares onde chegará o império português. Os portugueses despedem-se e regressam a Portugal.

O poeta termina, lamentando-se pelo seu destino infeliz de poeta incompreendido por aqueles a quem canta e exortando o Rei D. Sebastião a continuar a glória dos Portugueses.

 

 

O Género Épico

O género épico remonta à antiguidade grego e latina sendo os seus expoentes máximos Homero e Virgílio.

A epopeia é um género narrativo em verso, em estilo elevado, que visa celebrar feitos grandiosos de heróis fora do comum reais ou lendários. Tem pois sempre um fundo histórico; de notar que o género épico é um género narrativo e que exige na sua estrutura a presença de uma ação, desempenhada por personagens num determinado tempo e espaço. O estilo é elevado e grandioso e possui uma estrutura própria, cujos principais aspectos são:

Proposição - em que o autor apresenta a matéria do poema;

Invocação - às musas ou outras divindades e entidades míticas protetoras das artes;

Dedicatória - em que o autor dedica o poema a alguém, sendo esta facultativa;

Narração - a ação é narrada por ordem cronológica dos acontecimentos, mas inicia-se já no decurso dos acontecimentos (“in medias res”), sendo a parte inicial narrada posteriormente num processo de retrospetiva, “flashback” ou “analepse”;

Presença de mitologia greco-latina - contracenando heróis mitológicos e heróis humanos.

Os Lusíadas (1572): EPOPEIA DE IMITAÇÃO

  • Epopeia porque é uma narração em verso de um facto histórico grandioso, de interesse para toda a Humanidade.
  • Imitação porque segue os modelos das epopeias primitivas (ex.: a Ilíada e a Odisseia de Homero); contem dramatização das ações dos heróis como reflexo do conflito dos deuses (maravilhoso pagão)
  • Canta os feito do presente em comparação com feitos grandiosos do passado, e é ainda a voz dos que se opunham aos Descobrimentos (ex.:  “Velho do Restelo”)

Estrutura Externa d'Os Lusíadas

A obra divide-se em dez partes, às quais se chamam cantos. Cada canto tem um número variável de estrofes (em média de 110). O canto mais longo é o X, com 156 estrofes.

As estrofes são oitavas, portanto constituídas por oito versos. Cada verso é constituído por dez sílabas métricas; nas sua maioria, os versos são heróicos (acentuados nas sextas e décimas sílabas).

O esquema rimático é o mesmo em todas as estrofes da obra, sendo portanto, rima cruzada nos seis primeiros versos e emparelhada nos dois últimos (ABABABCC).

 

Estrutura Interna d'Os Lusíadas

Proposição

Canto I, est. 1-3, em que Camões propõe-se cantar as grandes vitórias e os homens ilustres - “as armas e os barões assinalados”; as conquistas e navegações no Oriente (reinados de D. Manuel e de D. João III); as vitórias em África e na Ásia desde D. João a D. Manuel, que dilataram “a fé e o império”; e, por último, todos aqueles que pelas suas obras valorosas “se vão da lei da morte libertando”, todos aqueles que mereceram e merecem a “imortalidade” na memória dos homens.

Invocação

Canto I, est. 4-5, o poeta pede ajuda a entidades mitológicas, chamadas musas. Para além das estâncias 4 e 5, onde o poeta se dirige às Tágides, isso acontece várias vezes ao longo do poema, sempre que o autor precisa de inspiração:

Dedicatória

Canto I, est. 6-18, é a dedicatória do poema a D. Sebastião, que encara toda a esperança do poeta, que quer ver nele um monarca poderoso, capaz de retomar “a dilatação da fé e do império” e de ultrapassar a crise do momento.

Termina com uma exortação ao rei para que também se torne digno de ser cantado, prosseguindo as lutas contra os Mouros.

A dedicatória tem uma estrutura tipicamente clássica:

 

Exórdio (est. 6-8) - início do discurso;

 

Exposição (est. 9-11) - corpo do discurso;

 

Confirmação (est. 12-14) - onde são apresentados os exemplos;

 

Peroração (est. 15-17) - espécie de recapitulação ou remate;

 

Epílogo (est. 18) - conclusão.

 

Narração

Começa no Canto I, est. 19 e constitui a ação principal que, à maneira clássica, se inicia “in medias res”, isto é, quando a viagem já vai a meio, “Já no largo oceano navegavam” (C. I, est. 19) , encontrando-se já os portugueses em pleno Oceano Índico.

Este começo da ação central, a viagem da descoberta do caminho marítimo para a Índia, quando os portugueses se encontram já a meio do percurso do canal de Moçambique vai permitir:

 

A narração do percurso até Melinde;

 

A narração da História de Portugal até à viagem (por Vasco da Gama);

 

A inclusão da narração da primeira parte da viagem;

 

A apresentação do último troço da viagem.

A narrativa organiza-se em quatro planos: o da viagem, e o dos deuses, em alternância, ocupam uma posição importante. A História de Portugal está encaixada na viagem. As considerações pessoais aparecem normalmente nos finais de canto e constituem, de um modo geral, a visão crítica do poeta sobre o seu tempo.

Episódios Presentes n'Os Lusíadas

 Episódios Mitológicos:

Concílio dos Deuses no Olimpo

Concílio dos Deuses Marinhos

 Episódio Cavalheiresco:

Os Doze de Inglaterra

Episódios Bélicos:

Batalha de Ourique

Batalha do Salado

Batalha de Aljubarrota

Episódios Líricos:

A Fermosíssima Maria

Morte de Inês de Castro

Despedida do Restelo

 Episódios Naturalistas:

Fogo de Santelmo e Tromba Marítima

Escorbuto

Tempestade

 Episódios Simbólicos:

Velho do Restelo

Adamastor

Ilha dos Amores

Consulta os seguintes ficheiros para saberes mais

Os Lusíadas - definição de epopeia, fontes da obra, estrutura externa e interna.pdf

apontamentos Lusiadas.pdf

 

 

 

Sujeito

sujeito é sobre o que ou quem se declara algo.

  • O Joãofoi às compras – Sujeito simples
  • A Mariana e as suas amigasforam passear – Sujeito composto
  • Fui às compras – Sujeito nulo subentendido
  • Contam-se histórias sobre ele – Sujeito nulo indeterminado

Vocativo

vocativo é utilizado em contextos de chamamento ou interpelação do interlocutor. Aparece separado do resto da frase por vírgulas. Pode surgir no início, no meio ou no fim da frase.

  • Ana, entra e está à vontade.
  • Entra, Ana, e está à vontade.
  • Entra e está à vontade, Ana.

Complemento direto

complemento direto encontra-se dentro do predicado e responde à pergunta “o quê?” ou “quem?”.

  • O Jorge viu um pássaro. (viu o quê? – um pássaro)
  • A Rita viu o Miguel. (viu quem? – o Miguel)

Complemento indireto

complemento indireto também encontra-se dentro do predicado e responde à pergunta “a quem?” ou “ao quê?”.

  • A Cristina ligou à mãe. (ligou a quem? – à mãe)
  • Não dei importância ao assunto. (não dei importância ao quê? – ao assunto)

Complemento oblíquo

complemento oblíquo é um constituinte selecionado pelo verbo, o que significa que se o retirarmos da frase muda-se o seu sentido.

  • Ele mora em Lisboa. (mora onde? – em Lisboa)

Exemplos de verbos que selecionam o complemento oblíquo: concordar, durar, ir, gostar, morar, pôr, precisar, vir, …

Modificador do grupo verbal

modificador do grupo verbal acrescenta uma informação opcional, ou seja, se o retirarmos da frase o seu sentido não muda. Pode aparecer em várias posições na frase e ter diferentes valores (tempo, lugar, modo, etc…).

  • Ele foi a Lisboa ontem.
  • Ontem, ele foi a Lisboa.

O modificador do grupo verbal distingue-se do complemento oblíquo por ser opcional na frase, ao contrário do complemento oblíquo que é obrigatório na frase para esta manter o seu sentido.

Predicativo do sujeito

predicativo do sujeito é selecionado por um verbo copulativo. Pode atribuir uma propriedade ou característica ou uma localização no espaço ou no tempo.

  • Ela é linda.
  • Ele está atrás da porta.

Verbos copulativos mais frequentes: ser, estar, permanecer, ficar, continuar, andar, parecer, tornar-se, revelar-se…

Complemento agente da passiva

complemento agente da passiva surge apenas quando a frase está na passiva e responde à pergunta “por quem?”.

  • O teste foi corrigido pela professora. (foi corrigido por quem? – pela professora)

Modificador do nome

Tal como o nome indica, o modificador do nome modifica um nome (ou pronome). No entanto, como é um constituinte não selecionado pelo nome, pode ser retirado da frase sem que esta se torne agramatical (sem sentido).

Modificador do nome restritivo

Modificador que restringe/limita a realidade referida pelo nome que modifica. Geralmente surge à direita do nome que restringe, que pode encontrar-se tanto no sujeito como no predicado, e nunca está separado por vírgulas.

  • Vi um filme interessante. (interessante modifica o nome filme)
  • A casa da Joana é bonita. (da Joana modifica o nome casa)
  • Cão que ladra não morde. (que ladra modifica o nome cão)

Modificador do nome apositivo

Modificador que não restringe o nome, por isso está sempre separado por vírgulas.

  • O João, o irmão da Maria, é meu colega. (o irmão da Maria modifica o nome João)
  • A Inês, ansiosa, foi ver as notas. (ansiosa modifica o nome Inês)
  • O carro, de valor inestimável, nunca será vendido. (de valor inestimável modifica o nome carro)
  • A Joana, que é a minha melhor amiga, vai-me ajudar. (que é a minha melhor amiga modifica o nome Joana)